luveredas











Coberta de orvalho
a aldeia faz-me lembrar
um cemitério
Ryuta IIda (1920)

Tomate no asfalto. Um crime prenuncia outro crime. De quem é a culpa? Na velha e nova China de Mao, parece imperar a lei do Oeste: progresso e corrupção. Sob o imperativo da ordem, forja-se um crescimento desigual que em nada difere do mundo ocidental capitalista. Há luto e castigo. A verdade, em maior ou menor grau, não vem das notícias de jornal ou da Internet; antes, ela vem da arte, em toda sua pujante ancestralidade.

Assim é Um toque de pecado (China, 2013), do diretor Jia Zhang-Ke, vencedor do prêmio de melhor roteiro em Cannes, 2013. No filme, homens e mulheres comuns são levados a tomar atitudes extremas (salvo o primeiro personagem que abre a história e reaparece na segunda narrativa), motivados pelo senso de justiça. Valendo-se de uma técnica já conhecida na Antiguidade como estrutura em anel, as histórias se conectam por temas comuns, ainda que lhes sejam dados tratamentos distintos. A primeira e a última, por exemplo, trazem cenas de reconhecimento de seus protagonistas pela via do espetáculo cênico. A composição, em cada história, lembra o teatro kabuki[1], dada a maquiagem carregada e os atos dançados, cantados e narrados. Nas duas situações, os atores do espetáculo tradicional representam na vila onde vivem os operários de uma mina. A fala deles expressa exatamente o que, naquele momento, aqueles personagens da primeira e da última história precisam ouvir. Em uma das representações, o ator diz: “O juiz pode mudar de opinião, mas você sabe de quem é a culpa.” A personagem em questão assiste a um julgamento fictício e está fugindo (ou pensa estar) de um passado que a condena: o primeiro crime foi relacionar-se com um homem casado durante anos, a certa altura ele propõe que ambos vivam juntos e a convida para seguir com ele para outra cidade. Na sala de embarque, é detectado um objeto suspeito na bagagem dele: um canivete, segundo ele, para cortar frutas. Ela decide ficar e pede o canivete, para que ele embarque sem mais problemas. Depois de levar uma surra da esposa, que descobre seu envolvimento com o marido, vai tentar vida nova junto da mãe em outro povoado, onde vê a notícia de que o trem no qual deixou de embarcar sofreu um grave acidente, deixando vários mortos, entre eles, possivelmente, seu amante. De volta ao antigo emprego, comete o segundo crime: matar um cliente no local de trabalho, após ser insistentemente humilhada e ofendida. A cena evoca clássicos do cinema chinês, tanto pelos movimentos de câmera, quanto pelo já demonstrado derramamento de sangue.  No hotel de pernoite, que é também casa de massagem e sauna, onde ela trabalha, todos têm um preço, e quem se recusa está sujeito a pagar um valor ainda mais alto. Ela se dispõe. Valendo-se do canivete que livrou sua vida de um acidente fatal, desfere os golpes que levam à morte o homem que a ofendeu com a cor do dinheiro. Mas é outra a cor que ela traz nas mãos…

Para além do sangue que por vezes espirra da tela, há beleza e notas de delicadeza em cada uma das quatro histórias. Em outra referência clássica, além do papel de parede da abertura, que reproduz uma pintura tradicional chinesa (séc. XVII/XVIII, circa), o simbolismo animal é uma constante e delineia algumas sequências: um cavalo é fustigado até cair, mas será, aos olhos de um espectador catártico, devidamente vingado; o tigre da manta encobre o rifle do homem que fará justiça com as próprias mãos; o touro repousa no gorro do assaltante que se entedia na própria vila e sente prazer em atirar; os bois e búfalos que seguem para o abate numa carroceria e outros que pastam na estrada com seu olhar lânguido e sem pressa; os peixes-palhaço, guardados num saco com água, são devolvidos para o rio ou represa; a serpente que cruza o caminho da mulher que mata com arma branca, antes acolhida por uma linda jovem guardiã de serpentes. Só o jovem que devolve para as águas os peixes aprisionados, ao lado da namorada e colega de trabalho, mãe de uma filha pequena, atenta contra a própria vida. Não disposto a arcar com o “mal” praticado a outro colega de trabalho em emprego anterior – o jovem teve o dedo cortado por distração durante o expediente, sendo aquele apontado como o responsável – vai tentar a sorte em outras vilas, conhecendo a fachada de figurões chineses e estrangeiros que vão buscar prazer ao lado de belas e jovens acompanhantes, entre elas a jovem que guardava os peixes e se apresenta budista. Ele acaba voltando para o trabalho massivo e massificante em outra fábrica, até ser ameaçado por aquele a quem, por acidente, causou um sofrimento e, por fraqueza, acabou reagindo contra si mesmo. Num ato supremo de negação, renuncia a própria vida, pondo fim ao sofrimento e ao sofredor.

Só há sofrimento, não
         há sofredor.
Não há agente, só há
                            o ato.
O Nirvana é, mas não
Aquele ou aquela que o
                           procura.
O caminho existe, mas
não aquele ou aquela que
nele anda.
(Visuddhi Magga, 16)

Tanta beleza e tanto horror. Séculos de uma rica tradição gravada na arte mural, marcial, na porcelana, na argila, na música, na poesia, na xilogravura, na medicina, na religião, na filosofia. No entanto, com Nietzsche podemos dizer: “Quanto sangue e quanto horror há no fundo de todas as ‘coisas boas’!…” (2009:47). O que parece bom para alguns, sob um custo, muitas vezes, inestimável, provoca o mal-estar e a desconfiança de outros. Reclama-se a palavra empenhada, promessas não cumpridas, sonhos desfeitos. Exige-se reparação. A tensão máxima dessas forças é traduzida na primeira narrativa, a do minerador furioso que se revolta contra a corrupção dos líderes do seu povoado. Ele só queria justiça. Em nome dela foi espancado e dispensado do emprego. Antes, tentara pelas vias legais, propusera o diálogo, mas acabou se tornando uma pedra no sapato. Ameaçado, teve de engolir a seco sua reclamação. Quiseram comprar seu silêncio. Um dia não pôde mais, até explodir num banho de sangue anunciado nas primeiras cenas do filme: uma carga de tomates maduros espalhada no asfalto. O gigante tombou; em sua queda, maximizou-se a violência, sob as mais distintas formas, como retrata o diretor chinês.

Encerrando esta breve reflexão que não se pretende (e está longe de sê-lo) uma crítica cinematográfica, retomamos a questão inicial aqui levantada: de quem é a culpa? A resposta, mais uma vez, é sinalizada por Nietzsche. Ele alude, emGenealogia da moral: uma polêmica[2], à mais antiga e primordial relação pessoal para explicar a origem do sentimento de culpa, da obrigação pessoal: a relação entre comprador e vendedor, credor e devedor. Segundo ele, é possível situar aí “o primeiro impulso do orgulho humano” e a suposta primazia perante os outros animais. Por isso funciona, e bem, o totemismo no filme aqui comentado. No parágrafo 8 da já referida Segunda Dissertação, o filósofo acrescenta:

O homem [Mensch, em alemão] designava-se como “ser que mede valores, valora e mede, como o “animal avaliador”. Comprar e vender, juntamente com seu aparato tecnológico, são mais velhos inclusive do que os começos de qualquer forma de organização social ou aliança: foi apenas a partir da forma mais rudimentar de direito pessoal que o germinante sentimento de troca, contrato, débito [Schuld], direito, obrigação, compensação, foi transposto para os mais toscos e incipientes complexos sociais ( em sua relação com complexos semelhantes), simultaneamente ao hábito de comprar, medir, calcular um poder e outro. O olho estava posicionado nessa perspectiva, e com a rude coerência peculiar ao pensamento da mais antiga humanidade, pensamento difícil de mover-se, mas inexorável no caminho escolhido, logo se chegou à grande generalização: “cada coisa tem seu preço; tudo pode ser pago” – o mais velho e ingênuo cânon moral da justiça, o começo de toda “bondade”, toda “equidade”, toda “boa vontade”, toda “objetividade” que existe  na terra. Nesse primeiro estágio, justiça é a boa vontade, entre homens de poder aproximadamente igual, de acomodar-se entre si, de “entender-se” mediante um compromisso – e, com relação aos de menor poder, forçá-los a um compromisso entre si. (2009:54-55)

É o que nos parece fazer cada um dos quatro personagens de quatro províncias da China contemporânea. Cada um, a sua maneira, assume um caráter, e um totem, escrevendo, de um jeito diverso, o próprio destino.

 

Luciana Sousa

Fortaleza, 07 de janeiro de 2014

 

[1] Gênero japonês do século XVII

[2] NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Genealogia da moral: uma polêmica. Tradução, notas e posfácio Paulo César de Souza. – São Paulo: Companhia das Letras, 2009.



O céu sob as lentes de um menino. Ele tem duas opções: olhar para cima ou para baixo. Num dos seus registros fotográficos, já rapaz, o inusitado tem lugar e pode mudar, sem querer, sua rotina. Este é o mote do curta de animação “O Céu no Andar de Baixo”, escrito, dirigido e produzido por Leonardo Cata Preta, que também assina a animação com Marcone Loures e Adriane Pureza. As vozes são de Eduardo Moreira, a música de Daniel Nunes e o desenho de som de Ronaldo Gino. 35 mm.
Exibido e premiado em diferentes festivais e mostras, como o Festival Luso-Brasileiro de Santa Maria da Feira, em sua 14ª edição; o 21º Cine Ceará – Festival Ibero-Americano de Cinema e a Mostra Brasilis – 9º Curta Santos, o filme conta a história de Francisco, que sofre de uma doença rara no pescoço, reservando-lhe a condição de só olhar para o céu ou para o chão. Desde os doze anos de idade, ele faz registros dos fatos importantes de sua vida com fotografias do céu, seu ângulo preferido, pois lhe parece mais bonito e menos hostil. O de baixo, que o faz ver melhor onde pisa, também traz à luz um mundo mais feio e sujo, compartilhado com seu fiel companheiro Pereba, um cão vira-lata por quem se afeiçoou ainda na infância.
A voz em off do narrador que tanto apresenta quanto interpreta os personagens remete a outro curta-metragem, também de 15’, um documentário que faz uso de diferentes recursos gráficos e fotográficos para contar uma história (ou descrever um fato para muitas famílias ainda presente ou muito real) à luz da História e, com isso, fazer uma denúncia social. Trata-se do filme “Ilha das Flores” (1989), de Jorge Furtado, com narração de Paulo José. Também o curta de Catapreta mescla técnicas digitais de animação 2D, que ora lembram colagem, dada a superposição de imagens, presente em outros de seus trabalhos, como “Da Tripa, Coração (TucA)”, animação de 2014, com música de Arnaldo Antunes. Em ambos os trabalhos do realizador mineiro, imagens evocativas – de filmes e cineastas, como Tim Burton, Miyasaki, Furtado – conferem certa marca do seu trabalho: sombras, meias listradas em pares de pernas alongadas, peixes, aranhas. Em um, a música; no outro, a narração dão o tom, imprimem o ritmo da história, também atravessada por momentos de silêncio e uma equilabrada e funcional trilha sonora.

“O amor nasce de sementes distraídas que brotam ao acaso.”

Imagens em paralelo, desenho e microfilmes, traços que beiram o grotesco: a opção (ou opções) do diretor e roteirista reflete (m) e faz refletir sobre a vida de quem vê a vida de cabeça para baixo ou para cima, ou ainda de pernas para o ar. Um jovem negro, que usa aparelho ortopédico e é avesso às demais pessoas em função da aversão que muitas também lhe dispensam, descobre-se, num lance inusitado, apaixonado por uma vizinha. As emoções desse primeiro encontro evocam outro impressionante trabalho, desta vez do mundo das artes plásticas, do qual Catapreta também faz parte. A aranha que toma forma a partir de uma calcinha remetem a Louise Bourgeois e seus desenhos, litografias e esculturas, notadamente Maman (1999), instalada em diferentes cidades do mundo (Paris, Londres, Rússia, Nova York, Rio de Janeiro)


Não por acaso “O Céu no Andar de Baixo” recebeu elogios e prêmios da crítica e do público por onde passou. Melhor roteiro, animação, fotografia, trilha sonora, filme, diretor, menção honrosa figuram entre os principais. Sutil, delicado, por vezes ácido ao personificar objetos e partes do corpo, como os pés, lança um olhar curioso sobre as diferenças e como lidamos com elas, sobre ser e estar no mundo, sobre o que vemos e o que nos olha. Se as raízes são a zona obscura do amor”, “a copa da frondosa árvore é a boaventura do amor”.

Luciana Sousa (Francisca L. S. da Silva) é mestre em Literatura Comparada pela UFC. E-mail: luveredas@yahoo.com.br


{janeiro 29, 2016}   Sob um céu nublado

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Ponta dobrada de um rabo inerte

Só o vento, quando sopra, move-a.

Salta de uma caixa malajambrada

Mal esconde o fedor…

Uma, duas vezes, a mesma inércia,

Piora o odor…

Sobre ela um tampo de papelão é posto

Esconde a sombra da sombra.

Até que, na terceira vez,

o corpo inchado de um gato preto

se revela sob um céu nublado.

Jaz à beira do asfalto.

Já se desfaz…

(Lucy-Chan, Fortaleza, 28.01.2016)


{abril 27, 2014}   140 anos de Impressionismo

Impression. Soleil levant, 1872, Claude MonetImpression. Soleil levant, 1872, Claude Monet

O que mais lhe impressiona no impressionismo?

Eleja uma imagem e comente os aspectos que lhe chamam atenção na referida obra:cor, textura, tema, luz, sombra. Estabeleça relações com outras expressões estéticas, como literatura, música e cinema.



et cetera